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O desafio da diabetes

Publicado em 15 de Mar de 2013 por Leticia Maciel | Comente!

Sobrepeso e obesidade são os maiores fatores de risco para o aparecimento da diabetes tipo 2



Texto: Renata Armas/ Adaptação: Letícia Maciel

Médicos ainda enfrentam a resistência dos pacientes diagnosticados com diabetes em se tratar
e mudar o estilo de vida. Foto: Divulgação.

A pessoa com diabetes precisa se conscientizar que tem um problema para toda a vida e entrar de cabeça nele, para ter o melhor tratamento possível. A orientação do médico Airton Golbert, atual presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), não é algo novo, mas ainda precisa ser repetida a cada novo paciente diagnosticado com a diabete tipo 2.

"A grande dificuldade que enfrentamos hoje nos cobnsultórios é a que as pessoas querem fazer de conta que não têm o problema. Elas preferem não encarar a doença e ainda não se dedicam como devem ao tratamento que lhes é indicado", afirma o médico.

A VivaSaúde  entrevista o médico  eprofessor da disciplina de Endocrinologia e Metabologia da Universidade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre (UFCSPA), para saber mais sobre a doença. Confira!

Qual é o maior desafio que o paciente diagnosticado com diabetes encontra?

Golbert-O grande desafio do diabetes tipo 2 é que como afeta uma população mais adulta, com hábitos estabelecidos, a mudança no estilo de vida é mais difícil, e a maioria dessas pessoas precisa emagrecer e fazer exercícios físicos, atividades que nunca fizeram antes na vida.

Como é hoje o padrão de tratamento de diabetes para pacientes tipo 2?

Airton Golbert-No Brasil e no mundo, a primeira recomedação para os pacientes com diabetes tipo 2 é a mudança na dieta e no estilo de vida, sempre com a indicação de exercício físico. Quando for necessário usar medicação, a metformina normalmente é a primeira opção, uma vez que a droga pode ser adquirida via Sistema Único de Saúde (SUS). Porém, se após três meses do uso do medicamento não há melhora nos níveis de compensação da glicose do paciente (que indicam que a doença está controlada),o médico pode buscar outras opções orais. Lembrando que esse é o tratamento padrão para pacientes com níveis de glicose até 300. Se for superior, é recomendado o uso de insulina.

Qual é a idade média de diagnóstico da doença?

Golbert-No Brasil, calcula-se que existam 10 milhões de diabéticos. Em geral, o diabetes tipo 2 aparece em pessoas acima de 40 anos de idade. Mas hoje o diagnóstico pode ser precoce devido ao aumento de pessoas com sobrepeso e obesidade. No japão e nos EUA, por exemplo, há mais adolescentes e jovens adultos com a doença por causa do excesso de peso, o primeiro fator de risco para a doença. Estima-se que entre 80% e 90% dos pacientes com diabetes tipo 2 têm IMC entre 25 e 30 (sobrepeso) ou acima de 30 (obesos). Outro fator importante de risco é o aumento da expectativa de vida, uma vez que a prevalência da doença aumenta conforme o avanço da idade.

Existe alguma mudança no tratamento do diabetes para pacientes mais idosos?

 

Golbert-Sim, pois a exigência de rigor no controle  da glicose para paciente varia conforme a expectativa de vida. Pessoas mais idosas têm mais chances de ter complicações ao seguirem um tratamento que procura chegar a níveis de glicose considerados normais. Portanto, o controle do médico não deve ser tão rigoroso, uma vez que episódios de hipoglicemia - comuns em tratamentos com pessoas mais jovens- podem causar liberação de adrenalina e glucagon, hormônios que predispõem o aumento da pressão arterial e ataques cardíacos. Nesta caso, o médico vai controlar o diabetes usando um exame chamado de teste de hemoglobina glicada A1c (HB A1c), capaz de calcular a média de glicose no sangue do paciente nos 2 a 3 mesmes anteriores ao exame. Uma pessoa sem diabetes deve ter este índice entre 4% e 6%. Em pacientes chamados de compensados (ou seja, que controlam a doença) há tolerância de índice até 7%. No entanto, para pacientes idosos, o médico pode aceitar taxas de 8% e 8,5%. 

O paciente diabético é comprometido com o seu tratamento?

Golbert- Como o paciente tipo 2 descobre o problema na vida adulta, quando já tem seus hábitos estabelecidos, a mudança que o diabetes exige na rotina é mais difícil de ser lançada. A maioria dos pacientes tem de emagrecer e fazer exercício, mas nunca fizeram atividade física antes, e isso é uma das grandes dificuldades do tratamento. O fato de o diabetes ser uma doença crônica, ou seja, requerer um tratamento contínuo, também é um ponto a ser observado. Quem tem diabetes precisa tratar sempre, não termina nunca. Algumas vezes os pacientes ficam rebeldes por conta disso.

Segundo a pesquisa GAPP2, 4 em cada 5 pacientes relataram episódios de hipoglicemia. Porque isso acontece com tanta frequência?

Golbert-Normalmente os episódios de hipoglicemia são frequentes, mas, se forem leves, não trazem muitas complicações. É importante orientar o paciente que ela faz parte do tratamento, mas precisa ser evitada a todo custo, principalmente com o controle da alimentação. Dependendo do tipo de tratamento adotado, com o uso da mtformina, o organismo libera mais insulina. E o risco disso é justamente a hipoglicemia. No entanto, com medicamentos mais modernos, como a liraglutida, por exemplo, esse risco é bem menor. O problema é que nem todos os pacientes podem ter acesso.

Quais os sintomas do paciente que passa pelo quadro de hipoglicemia?

Airton Golber- Sensações de desmaio, suor frio, taquicardia, perda de sentidos, perda de consciência ou fome exagerada (como se tivesse um buraco no estômago) são relatados. O paciente fica com medo destas reações de seu corpo e costuma modificar o tratamento ele mesmo, alterando as quantidades de insulina. O maior risco, nesse caso, é piorar muito o diabetes. Nossa orientação como médicos é sempre esta: quando acontecer um episódio de hipoglicemia, o melhor é descobrir o motivo, mas nunca suspender a medicação. Eventualmente ela pode ser diminuída, mas nunca suspensa. E quem deve tomar essa decisão é sempre o médico.

Quem tem diabetes precisa tratar sempre.A terapia não termina 
nunca. Algumas vezes os pacientes ficam rebeldes por conta
 disso. Foto: Divulgação.

Quando o paciente não faz o tratamento correto, o que pode acontecer? O corpo dá sinais?

Golbert- O principal sintoma de que o diabetes está descompensado, ou seja, diabetes não controlado, é quando o paciente toma insulina e emagrece. Ele também costuma sentir mais sede e urinar mais, chega até mesmo a acordar a noite para urinar. Dores e cansaço nas pernas são outros sinais. No entanto, quando a glicose está elavada, a chamada hiperglicemia, não há sintomas claros, mas com o tempo essa condição pode levar a complicações mais sérias. Não podemos nos esquecer que o diabetes é a maior causa de cegueira adquirida (retinopatia), de doenças renais que precisam de hemodiálise, além de doenças cardiovasculares e mortalidade pelo acidente vascular cerebral (AVC). Amputação de membros inferiores também é uma consequência da doença não tratada, pois ela afeta a circulação e também os bervos fazendo que o paciente não sinta feridas nem dor. Isso pode levar à infecção.

E quanto à realidade brasileira, o que o senhor considera ser os maiores desafios para o tratamento em nosso país?

Golbert- O diabetes é uma doença crônica  e lidar com ela é extremamente difícil. Os pacientes normalmente seguem a orientação médica nos primeiros meses, mas depois veem que não vão morrer dessa doença, já que as consequências se manifestam a longo prazo. É por essa razão que eles abrem mão de seguir ás recomendações. O maior desafio, a meu ver, é que o médico precisa convencer o paciente de se tratar. E, nesse caso, os medicamentos mais modernos são de grande ajuda, mas a mudança de estilo de vida ainda é o ponto mais importante.



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