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Saiba o que são as alterações funcionais benignas da mama

Publicado em 30 de Jan de 2015 por Clara Ribeiro | Comente!

Dores e pequenos cistos nos seios são sintomas freqüentes e estima-se que cheguem a acometer 80% da população feminina no Brasil. Felizmente, a maior parte dessas alterações não está relacionada com o tão temido câncer



Texto: Rita Trevisan / Foto: Shutterstock / Adaptação: Clara Ribeiro

Algumas pesquisas apontam a alimentação rica em gorduras, o sendentarismo

e os quadros de estresse como agravantes do problema

Foto: Shutterstock

O aparecimento de pequenos cistos, em geral numerosos nos dois seios, foi por muito tempo o forte indicativo de uma doença conhecida como displasia mamária, também relacionada com o aumento do volume, a dor e a sensibilidade excessiva nas mamas. Com o avanço das pesquisas na área, a maneira de tratar o problema mudou consideravelmente.

Hoje, o diagnóstico merece um nome que, por si só, é capaz de aplacar a ansiedade de quem sofre com esses sintomas: alterações funcionais benignas da mama (AFBM). “A palavra displasia está relacionada ao crescimento alterado, à multiplicação desordenada das células, característico dos tumores cancerígenos. O termo foi usado durante muito tempo porque se acreditava que o problema poderia evoluir para o câncer. Mas isso não foi comprovado e atualmente classificamos essas alterações como normais, elas sequer são tratadas como uma doença. Em alguns casos, a intervenção do médico é apenas no sentido de aliviar os sintomas”, explica o doutor em Ginecologia pela USP João Carlos Mantese, especialista em saúde da mulher.

Em entrevista à VivaSaúde, ele explica as principais diferenças entre as alterações benignas e as malignas, além de destacar a importância dos exames regulares para a confirmação das suspeitas possivelmente levantadas num autoexame. O ginecologista também fala sobre os tratamentos mais utilizados para aliviar os sintomas e esclarece diversos mitos sobre o assunto.

O que são as alterações funcionais benignas da mama, antes conhecidas como displasia mamária? João Carlos Mantese: São alterações no tecido que compõe as mamas e que é extremamente sensível às mudanças hormonais. Elas decorrem das modificações que se desenvolvem ao longo do ciclo menstrual, durante a gravidez ou amamentação. Por isso mesmo, os sintomas são mais freqüentes em mulheres que estão no período reprodutivo, entre a puberdade e a menopausa.

É um problema muito comum entre as brasileiras? Mantese: Sim, estimamos que pelo menos 80% das mulheres apresentem algum sintoma relacionado à alteração funcional benigna.

Quais são os sintomas? Mantese: Dores e sensibilidade excessiva nos dois seios são alguns dos principais sintomas. Além disso, é muito comum que a mulher com esse tipo de alteração note, no auto-exame, vários cistos de tamanhos variados nas mama. Geralmente, a sensação da mulher, ao apalpar os seios, é parecida com a de tocar um saquinho de alpiste ou de ervilhas, guardadas as devidas proporções, claro.

Então, deve-se procurar o médico apenas ao notar o aparecimento de um ou mais nódulos no seio? Mantese: Não, absolutamente. A visita ao ginecologista deve ser feita pelo menos uma vez por ano, ainda que nenhuma anormalidade seja percebida no auto-exame. Vale lembrar que o câncer de mama, principal causa de mortalidade na população feminina do Brasil, é, na maioria das vezes, assintomático. Quando o tumor assume um tamanho considerável, que o torna possível de ser notado pelo toque, normalmente ele já está em estágio avançado.

Conhecer seu próprio corpo é a principal forma

de identificar nódulos e outros problemas nas mamas

Infográfico: Helton Gomes

Como posso saber se a alteração é benigna ou maligna? Mantese: Somente o exame clínico poderá precisar isso. Em alguns casos, o médico solicitará também exames diagnósticos complementares ou até mesmo uma biópsia, que nada mais é do que a retirada de uma amostra de tecido para verificação em laboratório. Nas alterações benignas, normalmente o desconfortos e estende aos dois seios e é comum encontrar vários cistos, que são como pequenos caroços preenchidos com líquido, também nas duas mamas. No caso dos tumores malignos, em que há crescimento desordenado de tecido, característico do câncer, os nódulos são, na maioria das vezes, sólidos, e localizam-se em apenas uma mama. Tumores císticos e nos dois seios ao mesmo tempo são a exceção à regra. Vale lembrar que também existem nódulos sólidos benignos, que caracterizam uma doença conhecida como fibroadenoma de mama. Nesse caso, pode-se fazer apenas o acompanhamento — após realização de exames para descartar a hipótese de um tumor. A cirurgia para a retirada é indicada para algumas pacientes quando o nódulo aumenta muito de tamanho e é feita a partir de uma incisão na região periareolar; o corte é feito ao redor da aréola, o círculo que envolve o mamilo. Mas somente um médico especialista pode confirmar um ou outro diagnóstico.

Quem tem esse tipo de alteração corre mais riscos de desenvolver um tumor cancerígeno?Mantese: Não. Uma pessoa que apresenta a AFBM tem as mesmas chances de desenvolver um tumor cancerígeno em qualquer fase da vida quanto aquela que não diagnosticou nenhuma alteração anterior nas mamas. É possível que, mesmo havendo constatado uma alteração benigna, a mulher venha a diagnosticar outros tipos de lesões malignas com o passar do tempo. Mas uma não tem relação com a outra. Que fique bem claro: as alterações benignas nunca perderão essa característica. Mas elas também não eximem a mulher do risco de desenvolver outros tipos de lesões, ao longo dos anos.

O que causa as alterações funcionais benignas? Mantese: Não há consenso na comunidade médica sobre isso, mas acredita-se que elas estejam relacionadas à predisposição genética. Algumas pesquisas chegam a apontar a alimentação rica em gorduras, o sedentarismo e até mesmo os quadros de estresse como agravantes do problema. Mas os dados que existem ainda não são consistentes o bastante. Mesmo assim, a nossa orientação é que a paciente opte por hábitos alimentares mais saudáveis e pratique exercícios físicos regularmente, já que essas mudanças no estilo de vida colaboram para a prevenção de outras inúmeras doenças.

Que cuidados podem ser adotados, no dia-a-dia, para aliviar o desconforto? Mantese: O mais importante é usar um sutiã ou top de alças grossas, que não fique largo nem justo demais e que seja capaz de dar boa sustentação aos seios, principalmente durante a atividade física. Algumas mulheres relatam uma melhora nos sintomas fazendo compressas quentes no local ou massageando as mamas. De qualquer forma, é sempre importante que a mulher desenvolva esse hábito de se tocar. Assim, muito provavelmente vai notar qualquer sinal de alteração precocemente, o que aumenta as chances de sucesso no tratamento de qualquer doença da mama.

Mulheres com cistos nos seios podem amamentar? Mantese: Sim, elas podem amamentar normalmente. Mesmo as que já apresentavam queixas de sensibilidade e dor excessiva, fora do período de lactação, poderão não sentir desconforto nenhum no aleitamento.

Como é o tratamento? Mantese: A maior parte das alterações benignas não precisa de tratamento, porque não representam risco à saúde. O uso de medicamentos via oral só é indicado para mulheres que se queixam de dores e sensibilidade constante nas mamas, que impedem uma rotina normal. O mais comum é receitarmos diuréticos leves para diminuir os inchaços, antiinflamatórios e analgésicos que ajudam a amenizar a dor. Raramente há necessidade de usar drogas hormonais. 

Cirurgia para a retirada dos cistos é uma alternativa? Mantese: Em casos específicos, em que os cistos evoluem, ultrapassando 2 cm de diâmetro, uma punção ou drenagem pode ser indicada. Mas as intervenções cirúrgicas não se aplicam a todas as mulheres porque é comum que, uma vez retirados, os cistos voltem a aparecer.

Essas alterações têm cura? Mantese: Depende. Em alguns casos, as alterações são circunstanciais e decorrem de uma mudança hormonal em determinado período da vida da mulher. Assim, os sintomas podem desaparecer com ou sem a adoção de um tratamento, ao longo do tempo. Mas há também casos em que os sintomas persistem até o fim do período reprodutivo e a única saída é tentar aliviar os desconfortos que surgem.

Quem tem alterações benignas não pode fazer uso de anticoncepcionais? Mantese: Algumas pesquisas indicam que os hormônios das pílulas e dos contraceptivos injetáveis podem aliviar os sintomas característicos dessas alterações. Portanto, não há uma relação direta entre o diagnóstico e a utilização ou não do anticoncepcional na rotina da mulher. O importante é que, antes de prescrever o medicamento, o ginecologista realize medições hormonais. Esses dados indicarão o melhor método contraceptivo a ser adotado.

Revista VivaSaúde



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