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Covid-19: Modulação intestinal pode se tornar uma abordagem promissora no manejo terapêutico dos pacientes da doença

O farmacêutico, bioquímico e pós-doutor em microbiologia Alessandro Silveira explicou que a microbiota intestinal tem papel importante na aquisição e replicação do vírus responsável pela covid-19

Bons Fluidos Publicado terça 20 julho, 2021

O farmacêutico, bioquímico e pós-doutor em microbiologia Alessandro Silveira explicou que a microbiota intestinal tem papel importante na aquisição e replicação do vírus responsável pela covid-19
De acordo com o farmacêutico, a modulação intestinal não seria a única terapia, e sim uma abordagem complementar a todos os tratamentos de suporte que já tenham sido indicados pelo médico. - Unsplash/ Ava Sol

A relação entre as bactérias que colonizam o corpo humano e a covid-19 tem sido estabelecida por inúmeros estudos científicos, que demonstram que a microbiota intestinal, por exemplo, tem papel importante na aquisição e replicação do vírus, atuando de maneira direta, ao inibir a replicação viral, ou de maneira indireta, modulando a resposta imune. A prática clínica mostra que as bactérias são responsáveis ainda por coinfecções, que contribuem para piorar o estado de saúde de pacientes que já desenvolveram a forma mais grave da doença.

O farmacêutico, bioquímico, pós-doutor em microbiologia e autor do livro “O lado bom das bactérias”, Alessandro Silveira, explica que a covid-19 é uma doença cujas complicações estão associadas, não à atividade direta do vírus, mas à resposta imune do hospedeiro. “Como as bactérias intestinais auxiliam o sistema imune a funcionar de uma maneira mais adequada, fica evidente a relevância destes microrganismos no controle da doença”, diz.

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A microbiota intestinal atua de três formas para minimizar os efeitos da infecção pelo Sars-CoV 2 e controlar o andamento da doença. A primeira é pela modulação do sistema imune. Conforme Silveira, as bactérias impedem que haja a hiperatividade da resposta imune, a chamada tempestade de
citocinas (mediadores inflamatórios), que se dá quando o organismo reage à infecção agressivamente, levando ao desenvolvimento de edema pulmonar
(pulmão se enche de líquido), que impossibilita a troca gasosa, acarretando insuficiência respiratória.

A segunda forma é através da supressão dos receptores celulares. O pós-doutor em microbiologia explica que o Sars-CoV 2 tem uma proteína de superfície que funciona como uma chave para o receptor (AC-2) da célula, que atua como uma fechadura. “A partir do momento que essas fechaduras estão escondidas ou não existem mais, o vírus não consegue penetrar a célula”, relata. Como o vírus não adentra às células, ele fica impossibilitado de se replicar. Nesse ponto, entra a terceira forma de atuação das bactérias, que é por meio da destruição ativa do vírus que fica exposto do lado de fora da célula.

Para ter uma microbiota intestinal equilibrada e saudável e, consequentemente, um sistema imune eficiente para lutar contra infecções, a boa alimentação é fator essencial. De acordo com o pós-doutor em microbiologia, a dieta ideal é aquela constituída de prebióticos, probióticos, simbióticos e alimentos naturais e que evita comidas processadas e ultraprocessadas.

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Silveira recomenda também não consumir vegetais com agrotóxicos e carne de animais criados em confinamento, pois estes, devido a condições muita restritivas, são tratados com antibióticos para não adoecerem.  Outros fatores benéficos à microbiota intestinal são: sono de boa qualidade; prática de atividade física; evitar o uso excessivo de medicamentos; e controle do estresse.

O desequilíbrio da microbiota intestinal torna o organismo humano suscetível a infecções e consequentemente ao agravamento da covid-19. Além disso, segundo o pós-doutor em microbiologia, o desequilíbrio favorece ao surgimento de comorbidades, como obesidade e diabetes tipo 2, por exemplo, que também contribuem para o desenvolvimento de quadros mais graves da doença.

O que não significa que bactérias intestinais, como Clostridium spp., Coprobacillus spp. e algumas proteobactérias, que são patológicas e certamente estão associadas ao agravamento da doença, estejam predispostas a causá-lo. “Esses microrganismos habitam nosso intestino em harmonia com outras bactérias, sendo o desequilíbrio o principal responsável para que atuem agravando a infecção”, diz Silveira.

Nesse sentido, destaca o bioquímico, é preciso cuidar, seguindo as recomendações já mencionadas, para manter o perfeito equilíbrio da microbiota intestinal, favorecendo o fortalecimento de bactérias
benéficas - que atuam como protetores contra o vírus - como Eubacterium spp., algumas espécies de bacteroides e Roseburia spp.

O fato de a microbiota intestinal atuar como agente fortalecedor do sistema imune faz com que o pós-doutor em microbiologia afirme que a modulação intestinal – por meio de alimentação e outros fatores - pode se tornar, no futuro, uma abordagem promissora no manejo terapêutico dos pacientes com covid-19. “Trabalhos científicos vêm demostrando que há um número de casos graves menor de pessoas com uma microbiota intestinal mais equilibrada. Além disso, elas costumam se recuperar mais rápido da doença”, afirma. Silveira faz questão de salientar, porém, que a modulação intestinal não seria única terapia, e sim uma abordagem complementar a todos os tratamentos de suporte que já tenham sido indicados pelo médico.

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Infecções bacterianas oportunistas

As bactérias também contam com um papel importante no aparecimento de infecções oportunistas.  Pacientes com quadros graves de covid-19 costumam apresentar pneumonias bacterianas adquiridas de duas formas: em razão do ambiente hospitalar e por causa da ventilação mecânica a que são submetidos.

Silveira explica que o hospital favorece o surgimento das chamadas bactérias multirresistentes - que resistem aos antibióticos utilizados para combatê-las. Conforme o bioquímico, esses microrganismos, por sua vez, são produtos de uma seleção natural que ocorre dentro do ambiente hospitalar, em razão do uso maciço de antibióticos. Estes medicamentos acabam por eliminar grande parte das bactérias do corpo, deixando vivas apenas as mais fortes.

Além disso, deve-se levar em conta, segundo o pós-doutor em microbiologia, que muitos desses pacientes que desenvolvem quadros graves de covid-19 já apresentam doenças ou são idosos, ou seja, costumam ter mais infecções e necessitam usar antibióticos de maneira regular. Eles também apresentam bactérias multirresistentes, que os tornam mais suscetíveis a coinfecções, em decorrência do desequilíbrio causado na microbiota intestinal. “Esse desequilíbrio aumenta a permeabilidade intestinal, fazendo com que as bactérias patogênicas do intestino possam migrar para o pulmão, através de uma conexão entre os dois órgãos, ocasionando o processo infeccioso pulmonar”, explica.

Já a pneumonia associada à ventilação mecânica ocorre pela formação de um biofilme bacteriano no respirador. O pós-doutor em microbiologia explica que por ser uma superfície inerte o tubo do respirador retém as bactérias, secretando, com o passar do tempo, uma matriz exopolissacarídica, com consistência de cola, que acaba por formar uma massa de bactérias. “Em um primeiro momento essa colonização afeta o trato respiratório inferior, indo posteriormente ao pulmão, causando um quadro grave de pneumonia”, relata.

Conforme Silveira, em decorrência desse processo de acúmulo das bactérias nas superfícies inertes, a pneumonia é esperada em pacientes que são entubados. Como não é possível a retirada do respirador, pois o paciente precisa do aparelho para continuar respirando e vivendo, a equipe médica monitora seu estado, agindo com antibióticos assim que surgem os primeiros indícios da coinfecção. “O manejo clínico desses pacientes é bastante complicado”, afirma.

As principais bactérias que causam as pneumonias relacionadas aos casos graves de covid-19 são: Staphylococcus aureus; Pseudomonas aeruginosa;
Acinetobacter spp.; Klebsiella pneumoniae, entre outras. O bioquímico ressalta que tais bactérias, normalmente, são multirresistentes, o que é um fator agravante. 


Sobre Dr. Alessandro Silveira

Graduado em Farmácia-Bioquímica pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Ciência Médicas pela Universidade Federal de Ciências
da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e pós-doutor em Análises Clínicas, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Atualmente é professor titular de Microbiologia Clínica para os cursos de Medicina, Farmácia e Biomedicina da Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), em Santa Catarina. Desempenha, ainda pela FURB, as funções de consultor técnico de Microbiologia Clínica e Bacteriologia Clínica e coordenador do curso de Especialização em Bacteriologia Clínica. Atua também como coordenador de Microbiologia Clínica da Sociedade Brasileira de Microbiologia (SBM), gestor da Microbiologia do Ghanem Laboratório de Joinville e consultor de Microbiologia Clínica e Molecular na DASA.

Suas linhas de pesquisa incluem a análise metagemônica do microbioma intestinal e a detecção da diminuição da susceptibilidade de Staphylococcus aureus à vancomicina.

Último acesso: 17 Sep 2021 - 04:30:44 (2910).