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A nova era do tratamento do diabetes salva mais vidas

Publicado em 23 de Sep de 2016 por Ana Carolina Gabriel | Comente!

Pacientes com complicações cardiovasculares agora podem se beneficiar de medicamentos com comprovado efeito protetivo contra o infarto



Por Cristina Almeida* | Foto Shutterstock | Infográfico Amanda Matsuda 

No retorno do Congresso Internacional da Sociedade Americana de Diabetes (ADA-2016), peguei um táxi do aeroporto para voltar para casa. A manhã mal tinha começado, mas o trânsito já estava pesado na Marginal Tietê. Para quebrar o silêncio, o motorista me perguntou de onde eu estava chegando. Eu respondi. Aí ele falou: “Nossa, que coincidência! Eu sou diabético!”. Observei que ele era um homem com idade entre 35 e 40 anos, estava acima do peso e, pela profissão que exerce, a chance de ele ser sedentário é grande.


Perguntei como é que ele se chamava e como tinha descoberto a doença. “Miguel Lastarria. Muito prazer!”, disse. Depois começou a contar sua história. “Eu me casei, passei a trabalhar na praça e levava esta vida de estar o dia inteiro sentado. Não comia direito. Meu carro era cheio de chocolate que eu comprava nos faróis da cidade. Um dia tive um mal-estar e fui parar no pronto-socorro. Bastou um exame de sangue para o médico descobrir que eu era diabético. Ele logo disse que eu estava acima do peso ideal, e eu me justifiquei dizendo que achava que era hereditário. Meus pais são diabéticos.” Após esse evento, ocorreu uma visita ao endocrinologista. A receita médica descrevia uma mudança no estilo de vida e um tratamento com medicamentos, incluída a insulina.


“Eu fiquei cinco dias sem sair de casa e sem falar com ninguém. E achava que ia morrer e que a vida não valia mais a pena”, falou. Mesmo assim, Lastarria acatou as indicações do médico — começou a pedalar pela cidade, perdeu peso, mudou a dieta, passou a medir a glicemia diariamente e as doses dos medicamentos foram pouco a pouco diminuindo. Um belo dia, decidiu que não ia mais continuar a se submeter a tantas regras. Não suportava ver-se aplicando a insulina. “Eu me sentia um drogado.” O motorista engordou 20 kg desde então. 



Desafio de paciente
A endocrinologista Denise Franco, pesquisadora do Centro de Pesquisas Clínicas (CPClin) e coordenadora do Departamento de Novas Terapias da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), afirma que esse comportamento é mais comum do que se imagina porque o primeiro passo para o controle da doença é a aceitação da enfermidade. “O fato é que o paciente leva um tempo até conseguir compreender e se adaptar à nova condição crônica”, diz.

Este é o desafio do diabético. E até existem programas de educação que ajudam na adesão ao tratamento. Nos Estados Unidos, somente 7% dos pacientes são orientados nesse sentido no primeiro ano depois do diagnóstico. “Os benefícios psicossociais incluem a redução de dois terços do estresse e a melhora da qualidade de vida em geral”, afirma Margaret A. Powers, presidente do Departamento de Saúde & Educação da ADA.

O problema é que esta é uma doença silenciosa. Como a pessoa não apresenta, inicialmente, sintoma algum, o diagnóstico pode ocorrer por acaso, em uma emergência, como aconteceu com o taxista Lastarria, ou decorre de alguma complicação (vide quadro). Rosângela Réa, coordenadora da Unidade de Diabetes do Serviço de Endocrinologia e Metabologia do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (SEMPR), diz que o atraso do diagnóstico do diabetes do tipo 2 é de cerca de seis anos. 



Epidemia ignorada
Estima-se que no Brasil exista cerca de 13 milhões de indivíduos com a doença que é considerada a epidemia do século XXI, mas, no último grande censo realizado, quase a metade nem suspeitava disso. Em todo o mundo não é diferente. “É mais fácil que as pessoas saibam sua taxa de colesterol e os limites da pressão arterial do que seus níveis de glicose. Enquanto isso, a prevalência do diabetes cresce em velocidade meteórica, e poucos são os pacientes que estão alcançando seus objetivos em termos de controle”, relata Desmond Schatz, presidente do Departamento de Medicina & Ciência da ADA. “Um paciente morre a cada sete segundos de diabetes e suas complicações. Uma em cada dez pessoas vai ter diabetes até 2040. Será que isso não é uma emergência?”, indaga o médico.

José Francisco Kerr Saraiva, cardiologista e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas, tenta situar o Brasil nesses números e relata que no passado o problema era a desnutrição infantil, que foi suplantada com a maior oferta de alimentos, não necessariamente nutritivos. O resultado foi o maior consumo de produtos industrializados e obesidade. Com esta, aparece o diabetes e todas suas consequências. “Já tivemos uma redução dessas mortes porque conhecemos suas causas e tratamentos, que se resumem em dieta, exercício, redução de peso e uso de medicamentos”, diz Saraiva.


A endocrinologista Rosângela acrescenta que a situação é alarmante, mas é possível evitar ou retardar os problemas crônicos do diabetes. Ela comemora um novo achado entre as alternativas medicamentosas disponíveis para esse fim. Segundo a médica, a boa notícia vai mudar a forma de tratar a enfermidade. Afinal, ela é a coordenadora brasileira do mais longo estudo (LEADER) com a liraglutida, um medicamento injetável disponível no mercado desde 2011 sob o nome comercial Victoza®, indicado para o tratamento de diabetes e obesidade. A pesquisa visava avaliar a segurança cardiovascular para adaptar-se às normas da vigilância sanitária dos Estados Unidos (FDA), que retirou anteriormente outro fármaco do mercado por sua provável relação com o infarto. Além disso, desejava-se avaliar mais rigorosamente sua segurança e saber se existiam outros benefícios com o uso do Victoza®.



De olho no futuro
A pesquisa teve a participação de 9.340 pessoas de 33 centros de pesquisa. O Brasil contribuiu com 933 pacientes. A conclusão final é que a liraglutida injetável, usada diariamente, reduziu em 14% o risco de infarto fatal, em 15% o risco de morte por todas as causas e em 22% as mortes por problemas cardiovasculares. Redução e equilíbrio da glicemia, peso e equilíbrio também foram observados. “Estamos vivendo uma nova era”, diz Rosângela. “Até agora tínhamos medicamentos que tratavam aspectos importantes do quadro do paciente, porém a mortalidade continuava alta. Soma-se agora a perspectiva de reduzir o risco de morte com esse fármaco.

”O endocrinologista Freddy Goldberg Eliashewitz, do Hospital Albert Einstein (SP), acrescenta que, na prática, o que se vê é o diabético morrer em razão de infarto. “A partir de agora, o paciente será informado que há opções que vão evitar isso.” Mas atenção, essa possibilidade não é a solução para todos os diabéticos nem dispensa o uso de insulina. O que esse estudo provou é que o paciente com alto risco cardiovascular, antes difícil de proteger, pode ser beneficiado com a medicação. “Se você é diabético e tem doença cardiovascular instalada, o uso da liraglutida pode reduzir futuros eventos”, conclui o cardiologista Saraiva.

Quando cheguei à porta de minha casa eu já tinha contado toda essa história ao taxista. Enquanto eu pagava, fui dizendo: “Olhe, o senhor é jovem, tem filhos, uma família e está colocando em risco sua vida. Se não quer se tratar pelo senhor, trate-se pelas pessoas que o amam”. Descemos do carro, ele me entregou a mala, estendeu a mão para me cumprimentar e falou: “Tê-la como passageira não foi mera coincidência. Vou pensar sobre isso”.

Como funciona a liraglutida no diabetes e na obesidade

O medicamento tem a função de controlar a glicose e sua ação se dá no intestino. O objetivo é agir sobre um hormônio natural denominado GLP1, elevando a sensação de saciedade. Para além do uso de pacientes com diabetes, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acaba de aprovar a substância, que será comercializada com o nome de Saxenda®, para o controle de peso e de forma complementar a um plano de emagrecimento que preveja mudança do estilo de vida (dieta com redução calórica e atividade física). O fármaco possui doses específicas e terá preço que varia entre R$668,22 a R$742,94 por caixa. Um estudo, publicado pelo prestigioso New England Journal of Medicine, em 2015, concluiu que a perda de peso média é de 9%, com redução de 8,2 cm da circunferência abdominal, além de melhora da saúde física geral.

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Fontes: Com dados da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD); International Diabetes Federation(IDF) Atlas; Ministério da Saúde/Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

*Cristina Almeida participou do Congresso Internacional da Sociedade Americana de Diabetes em New Orleans a convite da NovoNordisk




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