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Casal, masculino e saudável

Publicado em 06 de Apr de 2018 por Redação | Comente!

O contexto social ainda deixa o grupo mais vulnerável a infecções sexualmente transmissíveis, depressão e suicídio. Prevenir-se, contudo, é possível



Saúde homossexuais

A saúde do homem que se relaciona com outros homens – categoria que inclui homens gays e bissexuais – exige cuidados específicos. Dados do Ministério da Saúde e do Centro de Controle de Doenças (CDC, em inglês), do governo norte-americano, mostram que os chamados HSH são mais vulneráveis ao HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Porém, o motivo pouco tem a ver com “promiscuidade” – como muita gente acredita. Segundo o infectologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), Ricardo Vasconcelos, duas vertentes ajudam a explicar o fenômeno: homofobia e a prática mais frequente do sexo anal. “No primeiro caso, o jovem gay não terá acesso a uma educação sexual na escola ou na família que abarque o sexo anal ou oral. Assim, iniciará a vida sexual com pouca informação e de forma marginalizada”, assinala.

Ao contrário das mulheres, que costumam ir ao ginecologista logo no início da sua vida sexual, o jovem HSH enfrenta maior dificuldade em acessar os serviços de saúde – principalmente os públicos. “Ele pode não receber o acolhimento necessário para conseguir se abrir. Por conta da discriminação e do medo do julgamento, muitas vezes evita ir ao médico”, acrescenta o infectologista Marcos Vinicius Borges Tadeu, o Dr. Maravilha (MG).

Prevenção do HIV

Já a prática do sexo anal eleva o risco de doenças. “O ânus não tem lubrificação natural e o atrito durante as relações pode provocar microlesões. Isso facilita a entrada de ISTs”, explica Tadeu. Um bom exemplo é o caso da hepatite C – infecção cuja transmissão é mais associada ao sangue do que à prática sexual. “Porém, o sexo anal e o uso de brinquedos sexuais podem deixar o HSH mais propenso a se infectar”, fala Vasconcelos. Os dados da Pesquisa Mosaico Brasil 2.0 – que mapeou o comportamento sexual do brasileiro – corroboram essas informações.

Na hora do sexoFrequência semanalPrimeira relação

Grupo sem protocolo

A pesquisa mostrou que homens heterossexuais usam menos camisinhas que gays (37% contra 19%). Além disso, a frequência sexual semanal de ambos os grupos era bem parecida (respectivamente, 3,2 e 2,8 relações na semana).“A investigação apresenta os HSH como uma população de hábitos próprios, mas não tão distintos quanto os heterossexuais”, explica Carmita Abdo, psiquiatra do departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), autora do levantamento. “Além disso, os homossexuais estão abraçando gradativamente hábitos que vêm sendo desprezados pelos heterossexuais, como casamento e filhos. Isso reflete nas suas práticas sexuais”, pondera. Ainda em relação à saúde do HSH, um agravante é que o Brasil ainda não possui protocolos médicos próprios voltados à saúde dos homens gays e bissexuais. Protocolos são as diretrizes que orientamos médicos, coletivamente, sobre quais exames, vacinas e procedimentos são fundamentais para diminuir o risco de doenças. “Isso ajudaria na prevenção. Alguns profissionais isolados acabam se orientando pelos protocolos para HSH de nações como os Estados Unidos, Reino Unido e Austrália”, revela Carué Contreiras, médico sanitarista (SP). Cuidados específicos ajudam a manter o HSH livre de infecções, de acordo com cada doença. No caso do vírus HIV, é importante investir não apenas na camisinha, mas em prevenção combinada. Uma opção é a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), que consiste no uso diário do medicamento retroviral Truvada (combinação do tenofovir com a entricitabina) por pessoas que não têm o vírus. “O medicamento pode diminuir o risco de infecção em até 96%”, lembra Tadeu. A partir de dezembro de 2017, o Ministério de Saúde distribuirá o retroviral gratuitamente para esse público. “Seu uso, contudo, não exclui a necessidade de camisinha”, adverte o médico.

Carteira de vacinação

Estratégia de choque

O tratamento do homem que se descobriu soropositivo também deve ser entendido como prevenção. O retroviral bloqueia a replicação do vírus e possibilita que o paciente não possua carga viral suficiente para infectar parceiros. Dois estudos com casais gays sorodiscordantes que se relacionavam sem preservativo [Partner (2016) e Os opostos se atraem (2017)] revelaram que o soropositivo indetectável não é capaz de transmitir o vírus. “Isso não significa abolir o uso do preservativo, uma vez que estudos clínicos podem ser diferentes quando transpostos para a vida cotidiana. Contudo, os resultados são importantíssimos para a autoestima do soropositivo e para reduzir o estigma. No caso de a camisinha estourar, ele e seu parceiro não precisam se desesperar”, contextualiza Tadeu.

Uma saída chamada PrEP

No caso de uma eventual relação sexual sem camisinha com um parceiro de sorologia desconhecida, ou quando a camisinha estoura, há a possibilidade da Profilaxia Pós-Exposição (PrEP). Ela é composta por medicamentos retrovirais ingeridos por 28dias. Nesse caso, o homem possui até 72 horas para procurar o Sistema Único de Saúde(SUS) e receber a medicação. Quanto antes começar a terapia, maior será a chance de barrar a possível infecção. Por fim, o HIV deve ser testado a cada três ou seis meses. “Lembrando que não existe certo ou errado no sexo. A saída é se informar e lançar mão dos dispositivos de prevenção que temos”, tranquiliza o Dr. Maravilha.

Preservativo, por favor

A camisinha também é a melhor forma de barrar outras duas IST’s causadas por bactérias: a gonorreia (Neisseria gonorrhoeae) e a clamídia (Chlamydia trachomatis). O problema da dupla é que elas podem infectara região retal de forma assintomática (sem apresentar sintomas). Se houver sinais, muco e espasmos doloridos indicam que a dupla pode estar na área.A proctologista Priscilla Rebouças, do Hospital Samaritano Higienópolis (SP), afirma que “o diagnóstico é clínico e laboratorial, por meio de pesquisa da bactéria na secreção retal”, afirma. O exame, contudo, não é oferecido pelo SUS.

BrasilEstados Unidos

Cuidados diários

Na região peniana, a gonorreia e a clamídia inflamam a uretra. “Na gonorreia, há dor, desconforto para urinar e saída de secreção purulenta pelo pênis. A clamídia, por sua vez, tem sintomas parecidos, com pouca ou nenhuma secreção”, descreve o médico Eduardo Alexandrino Servolo de Medeiros, presidente da Sociedade Paulista de Infectologia (SPI). Para fechar a lista de IST’s, homens gays devem se vacinar contra o HPV, vírus que pode causar verrugas genitais e câncer no reto e ânus. “Estimam-se que 80% da população geral terá contato com o vírus. A maioria consegue eliminá-lo naturalmente, mas uma parcela pode cronificar a doença”, diz Vasconcelos. Ficar de olho na saúde anal é outra forma de barrar doenças. Nesse caso, é indicado lubrificar a região durante o ato sexual e usar preservativo. “No dia a dia, invista em uma alimentação rica em água e fibras. Lavar e secar as regiões anal e perianal após as evacuações também é recomendado”, ensina a médica Priscilla.

 

Via Revista VivaSaúde Ed. 174

 

*Por Leonardo Valle | Foto Shutterstock

 

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