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Transtorno alimentar é real

Publicado em 09 de Apr de 2018 por Redação | Comente!

A relação problemática com a comida tem causas multifatoriais, mas muitos casos se relacionam à insatisfação com a imagem corporal. A boa notícia é que é possível mudar a vida



Transtornos alimentares

Temos discutido cada vez mais sobre o papel, os direitos e os interesses das mulheres. Esse novo olhar sobre o feminismo trouxe luz para uma das lutas desse movimento: as mulheres não devem colocar seu valor na aparência física. Já evoluímos muito em nossas conquistas, mas muitas mulheres ainda vivem aprisionadas em seus corpos. A imagem corporal é causa de vergonha e sofrimento, e eu senti na pele e na saúde o que isso significa. 

Por 22 anos, vivi fora do meu corpo. Era como se existissem dois seres diferentes: eu e ele. Costumava tratá-lo como um ser estranho, distante, um inimigo, algo que eu não gostava e que não fazia parte de mim. Achava que ele era uma massinha de modelar, que eu podia manipular até ficar perfeito. Esqueci que eu era um ser vivo, que nasci com uma estrutura óssea e muscular diferente da dos outros, que meu corpo tem um formato e tamanho únicos e que, exatamente por isso, não posso compará-lo com os demais. 

A verdade é que eu odiava minhas curvas, meu quadril largo, meus braços grossos, minha estrutura grande. Então, lá pelos 12 anos, passei a tentar não comer. Foi a partir desse momento que a minha relação com a alimentação virou um inferno. A comida controlava minha vida, meus pensamentos, meus atos.

Tudo pela magreza

Sempre que engordava, ficava com vergonha, cancelava compromissos, mentia que estava doente para não ir trabalhar. Junto com a minha “gordura” vinha o sentimento de fracasso, de inferioridade. Não era só vaidade. Era uma sensação de inadequação, de total estranhamento em relação ao meu corpo. Eu sentia um medo terrível e inexplicável da comida mas, mesmo assim, não conseguia me controlar diante dela. Comigo era restrição extrema ou exagero. Quando comia, o pavor de engordar me consumia. Eu me sentia imensamente frustrada e fracassada. A única coisa que eu queria era ser magra, “seca”. Sonhava em ver meus ossos aparentes sob a pele. Sabe aquele corpo que parece que vai quebrar? É assim que eu queria ser – e essa obsessão me perseguiu por mais de 20 anos. 

Para ser magra, tomei remédios, fiz dietas, fiquei dois anos sem comer carboidratos! Tentei vomitar após as refeições. Desejei ter anorexia, mas não resistia muitos dias sem comer. Você deve estar pensando que eu passei por tudo isso porque era obesa. Mas eu meço 1,70 m e meu peso variou, em 20 anos, entre 57 e 72 kg, o que corresponde a um Índice de Massa Corporal (IMC) variando entre 19,7 e 24,5.E para ser obeso, é preciso ter IMC de 30 a 34. Ou seja, era considerada normal. Mesmo ciente disso, não aceitava a realidade. Só pensava em ser cada vez mais magra.

A hora da verdade

Demorou até eu perceber que o problema não estava no meu corpo, mas na minha mente. Fui saber disso quando consegui ir a um médico. Foi aí que, finalmente, descobri que oque tenho não é maluquice, nem frescura ou vaidade. É uma doença. Sofro de um transtorno alimentar não especificado, que os médicos classificam como uma das manifestações do transtorno alimentar. 

Ele é assim definido porque não se encaixa nos critérios de outros transtornos. Por exemplo, eu tinha comportamentos típicos de uma anoréxica, mas nunca tive perda de peso acentuada. Além disso, usava laxantes e diuréticos (métodos purgatórios), mas não tinha todas as características do quadro de bulimia. No Brasil, oficialmente, de 1 a 3% da

população geral e cerca de 4% dos jovens com idades entre 12 e 20 anos sofrem de algum tipo de transtorno alimentar, como anorexia ou bulimia. As mulheres são a maioria.

Esse número pode chegar a 10% da população se considerarmos os quadros parciais, como o meu. Já os casos de compulsão chegam a 29,7% entre os obesos. Esses são os dados oficiais, mas os especialistas afirmam que os números podem ser maiores porque só a minoria procura ajuda, seja por vergonha, falta de informação ou de condições financeiras.

Mais expectativa e ansiedade

A psicanalista Cybelle Weinberg, coordenadora da Clínica de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia e Bulimia (Ceppan), diz que a pressão social por beleza e magreza tem papel determinante no desenvolvimento desses transtornos. “A maioria das mulheres, hoje, está sofrendo por não ter o corpo ditado pela moda e pelo padrão de beleza. Evidentemente, em graus diferentes de sofrimento, que varia desde uma insatisfação generalizada com o peso, até o sofrimento que leva ao isolamento e afastamento do convívio social. O desejo de se ter um corpo belo sempre existiu, mas o sofrimento em um grau tão elevado como o que estamos vivendo hoje em dia me parece inédito”, explica a psicanalista. 

Você se identifica com isso? Come em resposta à raiva, tristeza, alegria ou solidão, continua a comer ao se sentir satisfeito? Come vorazmente, e engole os alimentos sem saboreá-los? Faz dietas super-restritivas e depois come demais porque sabe que no dia seguinte voltará à dieta? Usa diuréticos e laxantes? Pois fique atento! Tais comportamentos indicam um problema com a comida e com o corpo e, se durarem com o tempo, trarão sérias consequências. 

O psiquiatra Eduardo Aratangy, supervisor do Programa de Transtornos Alimentares (Ambulim) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Ipq-HCFMUSP), alerta para o perigo do uso abusivo de laxantes e diuréticos: eles “não emagrecem, só desidratam. E podem causar irritação do trato gastrointestinal, cólicas e dores abdominais, distúrbios gastrointestinais, perda de água e eletrólitos e danos irreversíveis ao cólon. Já os diuréticos levam à desidratação, cãibras, nefrite e falência renal”, diz. Há casos extremos de pessoas que precisam fazer hemodiálise pelo resto da vida ou até retirar parte do intestino por abuso dessas substâncias.

O que fazer?

Se você me perguntasse o que deveria fazer, eu diria: pare de machucar o seu corpo, como eu fiz por tantos anos. Costumamos dar atenção somente às doenças físicas. As dores emocionais são tratadas como bobagem ou frescura. Mas, definitivamente, não são. Podem causar um sofrimento gigantesco, e até levar à morte. Então, seja generoso consigo, não se julgue e busque ajuda. Você precisa descobrir qual é a dor que está tentando aliviar com a comida e descontando no seu corpo.

Acolha o seu sofrimento. Não há demérito em procurar ajuda médica, nem vergonha em ter um problema emocional. Não existem motivos para sentir vergonha do seu corpo, nem de quem somos. Quando compreendermos o valor disso, lá no fundo do nosso coração, conquistaremos o que deixamos de buscar por não nos sentirmos adequados.

 

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*Por Daiana Garbin | Foto Sylvia Arone | Adaptação Isis Fonseca.

 

 

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